The Fire Comes Down

por Galeria Quattro


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THE FIRE COMES DOWN

A exposição ficará patente até ao dia 31 de Janeiro de 2020.

Horário galeria: segunda a sexta-feira: 09:30 - 13:00 - 15:00 - 19:00

Olhando a pintura de Nuno Gaivoto vejo uma primorosa técnica e alguma intencionalidade lúdica no olhar. Eu acrescentaria ainda: um pestanejo de estranheza, mas sem qualquer pendor iconoclasta. E também comporta influências, sugestões, reflexos das referências visuais ou sónicas que se misturam numa fusão assumida como matéria genuína e substancial. O prazer da química e da osmose prevalece com rigorosa e salutar obstinação. É uma espécie de remix onde a cor se impõe com total desenvoltura no espaço da tela submetida a uma dinâmica explosiva no seu expressionismo traduzido em imagens tão audazes como insólitas.

Voltemos à vaca fria que tanto me apraz abordar. Alguma arte moderna tal como o pós-modernismo resume-se a jogos de palavras, em baralhar rótulos semânticos para dar a impressão de profundo. Parece mesmo estar a gritar: reparem, eu vou usar habilidades minimalistas neste trabalho e o espectador deve acumular no cérebro uma mensagem ou uma ideia. Não, não existe nenhuma fraude. Acontece exactamente o mesmo que está a acontecer com a economia moderna. Defendo furiosamente coisas corrosivas, fora de um sistema formatado. Hoje é difícil encontrar material interessante com uma inventividade inesperada. Deparamos com menos ruptura, menos intensidade nos projectos. Abundam ainda aquelas atitudes que se definem por uma contínua itinerância entre linguagens e recursos expressivos. Daí, a força actual da pintura na geografia artística. Voltou da tumba qual walking dead para quebrar a monotonia e exercer a chamada justiça poética.

Foi uma resposta estridente e universal, a que o mercado e as feiras não são alheios. “ Fico triste por ter sido a estrutura do mercado que revalidou e revigorou a pintura, opondo-se a todas as outras formas de arte”, afirmou o crítico americano Jason Farago num programa da BBC intitulado Painting is Dead? Assim mesmo com ponto de interrogação. “A pintura é fácil de guardar, de transportar, funciona bem na Internet, descobriu-se que era a ferramenta perfeita”. É verdade que assistimos na pintura a casos de uma mansidão e de uma monotonia confrangedora que podem ser redimidas por detalhes marginalmente envolventes de carácter sociológico. A pintura que reconhece os desafios de hoje também é capaz de manifestar os seus próprios sinais, sem se afastar dos códigos que fazem parte do meio. Objectivamente: tornou-se mais viável depois do vazio da arte conceptual. A pintura reconfigurou-se, invertendo o seu significado original.

Claro que a pintura não se esgota em sentenças de peritos. Mestiçagem, apropriação e uma abordagem fragmentária são as pautas da arte de hoje. No espaço da memória, uma ideia, uma iluminação vão mais consentâneas com o vibrato poético que dá sentido ao fazer e ao fruir da arte. “Os pensamentos mais belos são sempre os mais sombrios.” (Kannye West). Sim, o rapper de Chicago. Não é um anjo guerreiro. É só um músico com uma visão muito criativa nas suas diferentes propostas. Agora é o momento dos seus Sunday Service agregadores de raças, de diferenças sociais e daquele arrepiante primado espiritual presente no gospel. Não uso a palavra hype muito em voga porque me soa sempre a falso. Prefiro celebração. O que tem isto a ver com a arte? Tudo está em tudo.

Há ainda um foco na arte contemporânea que subsiste como um espaço eminentemente retórico e discursivo. Caucionada por palavras entediantes e reproduzidas nos ensaios de cariz académico como simbiótico, ambientalidade, alteridade que servem para camuflar os embustes artísticos. Na verdade, a cultura dominante não define mais o tempo em que vivemos, mas reflecte um doentio estado do mundo. Sabemos que a arte atrai os piores impulsos dos oligarcas. Das elites de vários quadrantes. As obras de arte perderam a transcendência, são equiparadas a uma mala Chanel ou qualquer outro objecto de consumo.

A imaginação liberta-nos das imagens perceptíveis e altera-as. É, mais ou menos, o que sublinha Gaston Bachelard no livro Air and Dreams. Numa conversa pontuada por constantes derivas ao universo da música costurada nas máquinas que também sabem produzir cut outs para criar texturas, Nuno Gaivoto dizia-me que gosta de romper com aquilo que é explícito. Procura os contrastes que lhe permitem alcançar um determinado objectivo. Só que, por vezes, depara com surpresas. Usa e abusa da velatura que funciona como “uma espécie de máscara”. Explica que extrai as imagens de fotografias, filmes, séries televisivas, “já não projecta na tela”. Essas manipulações das referências visuais expandidas exercem uma acção transfiguradora que é a marca da nossa moderna, inquieta e móvel consciência.

O tempo também pinta. Nuno Gaivoto descobriu a velatura e as potencialidades do simbolismo da cor na representação de uma imagem pictórica. Sem preconceitos, utiliza todas as cores em oferta na paleta. As suas pinturas surgem de velaturas após velaturas, de marcantes marcações. Fundos, linhas e riscas, formas disruptivas começam a fazer parte da composição. Do contexto físico criado emerge a pulsante linguagem plástica. Há que reter a explosão de um audacioso e vibrante cromatismo. As labaredas de amarelo, os vermelhos ardentes, os violetas, os azuis de Matisse que se alojam de imediato nas retinas. Pintar é um trabalho árduo, mas este artista envolvido em inúmeros afazeres alheios à arte, confessa que trabalha várias pinturas ao mesmo tempo. Sem um estilo específico, a carga narrativa claramente figurativa toma conta do assunto em desenvolvimento. O artista assume a indefinição e a surpresa como elementos galvanizantes do seu modelo estético.

Curiosamente, entre as suas preferências, destaca Degas e Rembrand. Não descortino resquicios destes artistas nas obras expostas. Vejo sobretudo torvelinhos de fogo, que emergem como metáforas de um mundo em ebulição. “Vou buscar coisas à música, sobretudo da década de 60 como Patti Smith ou Iggy Pop. Por vezes até os títulos me inspiram.” Insiste na tecla musical. Mudando de registo, associo a pintura a uma operação culinária. “É verdade. Começa-se pelo refogado, depois o cozinhado vai apurando lentamente...”, afirma o chefe Nuno que refere o aperfeiçoamento gradual da técnica da tinta. Na panela os ingredientes principais e os temperos fundem-se em lume brando. Segue-se o acto da degustação do menu.

Na tela é assim como assim. Por exemplo, mistura branco com amarelo para iluminar. Depois as imagens vão-se abrindo. E disparam num close-up como nos filmes. As imagens de Nuno Gaivoto, induzidas pelo impulso das velaturas chegam e impõem-se. Da sequência rítmica, derivada da expressão e da extraordinária agitação da cor, emerge o motivo, a temática, o argumento, a coreografia. A obra de arte deve comunicar uma ideia, um pensamento, uma pulsão abrasiva. Alguns artistas transmitem uma ideia de cada vez. Muitas ideias numa pintura podem complicar. Não é certamente o caso.

Lourdes Féria

Galeria Quattro

R. Cidade de Tokushima 1

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